[Crítica] A ousadia estética e textual de 'Felizes para Sempre?'



Pelo título, Felizes para Sempre? já demonstra seu caráter ambíguo, pois embora a  resposta possa ser afirmativa, o questionamento em si gera reflexão, dúvida e aos poucos, as pequenas falhas na estrutura da realidade questionada acabam por dar margem a expansão da resposta de forma não tão definida e simplória.  

A principal marca da nova minissérie da rede Globo é a ousadia, pois ao longo de cinco episódios a emissora abandona suas limitações tão severamente aplicadas as novelas e não tem medo de expor, de se expor. E não é apenas pela nudez recorrente de Paolla Oliveira ou o sexo lésbico na cama de trampolim, mas pelos diálogos adultos e inteligentes,  a direção ágil e a trilha sonora que mistura ritmos diversos. Existe audácia em cada sequência, algo que envolve, absorve o telespectador, o faz se importar e se sentir imerso naquela realidade.

Os tons de cinza estão em todos os personagens. Todos possuem defeitos, vícios, falhas e gatilhos emocionais intensos, construídos de forma tão elegante e coerente. Cláudio é o típico homem que faz de tudo para conseguir o que quer. Sem escrúpulos, ele não é um vilão, mas possui uma habilidade única de manipular todos à sua volta. E para quem tem tudo, onde colocar o desejo parece ser uma dúvida cruel.  E é exatamente por isso que Danny o atrai tanto, pois ela é alguém, que diferentemente de Telma, não se deixa controlar. Tão manipuladora quanto ele, a prostituta envolve pela sua beleza e carisma para depois descartar pelo simples prazer de mostrar que ela não pertence a ninguém. Vale destacar que Paolla Oliveira está deslumbrante e mostra seu talento (literalmente) para papéis muito mais complexos do que as tradicionais mocinhas ao qual está acostumada.  Em meio a figuras tão manipulativas, Marília figura como um peão no jogo de xadrez. Submissa e dedicada ao casamento, ela nega as evidências das mentiras do esposo, pois é mais fácil fechar os olhos. Ela não é ingênua, apenas se recusa a enxergar. Seu envolvimento com Danny, apesar de soar como uma brisa de euforia pode leva-la a cair em um abismo emocional difícil de sair.

Não menos interessantes, a união de Hugo e Tânia/Carminha parece uma verdadeira batalha. Ele correto e com temperamento curto, ela subversiva e dissimulada. Adianta negar que essa combinação tem tudo para não terminar bem? Já Joel é o irmão subestimado que tenta a todo preço manter aquela que o ajudou em seu momento mais difícil. Em meio a esses dilemas,  Norma e Dionísio ainda não mostraram a que vieram, e parece contraditório o fato de que um casal unido a 46 anos tenha dúvidas sobre fidelidade.

Retratar diferentes fases da união é realmente um trunfo da produção, pois torna o enredo dinâmico e não tendencioso. Inevitavelmente, o telespectador acaba se identificando com algum dos personagens.  O que incomoda é que todos os casamentos tenham que envolver uma traição conjugal. Haveria espaço para outros dilemas e conflitos mais amplos, não tão clichês. Apesar disso, a ambientação em que todos os casos foram inseridos gera margem para que o assassinato, ponto alto da minissérie, seja algo elaborado. Quem será que pagará o preço? 

Em termos técnicos, Felizes para Sempre? é grandiosa. Se ano passado em Amores Roubados The xx conquistou na trilha sonora, esse ano, Zoe Keating não ficou atrás e se encaixa perfeitamente na abertura com a música Tetrishead e em vários outros momentos. Direção e a fotografia em tons de cinza são outros destaques.

Em sua primeira semana, a minissérie apresentou uma evolução gradativa e contextualizou com maestria seus personagens. Realmente, uma belíssima produção nacional. A emissora deveria considerar a possibilidade de uma segunda temporada ou um spin-off só para Danny Bond, mas isso seria pedir de mais. 


2 comentários:

  1. Segunda temporada já de felizes para sempre !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. Foi uma boa novela, mas eu amo a série. Um amigo me disse que este 24 de maio uma série que foi gravado em Rio de Janeiro ser liberado. Serve eu vejo algumas coisas e aperfeiçoado.

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