[Crítica] Entre Abelhas




Em uma sociedade que nos motiva a estar sempre ocupados, estamos realmente deixando de enxergar as pessoas. Andamos em ruas tumultuadas usando fones de ouvido, não desgrudamos de nossos celulares mesmo quando dividimos a mesa com amigos e nos trancamos no quarto ignorando nossa família na sala. Ouvimos o que os outros têm a dizer, mas não prestamos atenção e fazemos a mesma pergunta várias vezes ou nos surpreendemos com informações que já nos foram dadas. Essa é a nossa realidade. Estamos deixando de enxergar as pessoas.


Em Entre Abelhas, a causa e o problema são indissociáveis. Bruno  passa tanto tempo focado em seu drama diante da aparente invisibilidade de seus semelhantes que não presta atenção nestes e exatamente por isso eles continuam sumindo. Um a um, todos aqueles que não estão diretamente envolvidos com seus conflitos instantâneos vão desaparecendo e seu maior esforço para manter essas pessoas se resume a analisar as estatísticas de quem ele pode ou não ainda enxergar. Seu egoísmo involuntário se torna não exacerbado que até aquela que está totalmente devotada em sua causa desaparece sem que Bruno se dê conta que sua mãe tinha problemas de saúde. Ele apenas enxerga aquilo que ele quer ver e que implique em algo que solucione seus atuais problemas e por conseguinte o resto simplesmente desaparece. 

E o pior de tudo é concluir que mesmo diante de todas as adversidades, ainda estamos confortáveis sem enxergar as pessoas. Bruno encontra uma maneira de viver em sua realidade individualizada, isolando-se do resto do mundo e ignorando qualquer sinal de vida. Ao concluir, Entre Abelhas não oferece uma saída fácil e seu protagonista simplesmente se satisfaz com sua nova percepção da realidade, na qual a presença humana não é mais necessária. Ele consegue viver sozinho. 

Para quem esperava um filme de humor, baseado na reputação de Fábio Porchat, Entre Abelhas entrega um texto inteligente, mas pontual, sem cair no exagero clássico das comédias nacionais. Porém, ao optar pelo pelo equilíbrio entre o drama reflexivo e a tentativa de arrancar risadas, o filme acaba por não se afirmar de forma uníssona, deixando aos seus telespectadores a interpretação dos fatos e a conclusão sobre o que de fato eles assistiram. 


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