[Crítica] A homossexualidade na teledramaturgia brasileira da última década


A ideia de escrever essa crítica surgiu nos tempos da novela Amor à vida. Na época, o destaque dado ao personagem Félix me fez questionar o avanço da teledramaturgia brasileira no que diz respeito ao tema da homossexualidade. Veja bem, personagens homossexuais estão presentes nos folhetins há bem mais que dez anos, porém na sua maioria com arcos centrais focados na sua opção sexual ou quando não, usados como alívio cômico. A primeiro momento, e como de fato foi, Félix parecia um progresso no que dizia respeito a esse assunto, por sua personalidade complexa e cheia de nuances, cujas ações não eram guiadas pela luta de direitos ou a desconstrução didática do tabu. Félix era egoísta, egocêntrico, e altamente manipulador, quebrando o estigma de que como minoria perseguida, ele deveria ser bom e simpático na tentativa de ser encaixar. Curiosamente, foi exatamente esse aspecto que impulsionou sua redenção, pois a empatia criada no público pela sua rejeição como filho fez com que sua desconstrução como vilão fosse necessária e o personagem alcança o posto de protagonista já pela metade da trama. Dessa forma, seu par romântico com Niko se torna algo totalmente merecido, pois na posição de protagonista, ele merecia um final feliz.

Amor à vida se seguiu a Em Família, cujo o casal Clarina,  que embora altamente questionado pela bissexualidade tardia de Clara e o fato desta abandonar um marido doente, se tornou o principal destaque da trama de Manuel Carlos, e todos os dias o twitter acumulada mensagens de apoio ao romance. Diferentemente do beijo entre Félix e Niko, a troca de afetos entre as duas não gerou alvoroço e foi tratada com naturalidade pela mídia e os telespectadores.

Uma novela  depois, o resultado é de retrocesso. Em seu conceito inicial, Babilônia contava com um considerável destaque para personagens homossexuais, ao trazer nada menos que Fernanda Montenegro e Natália Timberg para representar uma relação estruturada e fundamentada,  uma crítica bem colocada quando no Brasil ainda se discute o conceito de família. A ideia não era partir da construção de um relacionamento e sua evolução, mas sim fugir dessa linha e inserir o casal longe de qualquer premissa polêmica. Curiosamente, o beijo aqui chocou e revoltou, embora a mesma ideia já tivesse sido colocada em novelas anteriores e até na minissérie Felizes para Sempre? , exibida poucos meses antes. Então, foi o beijo em si que incomodou ou as suas representantes, atrizes renomadas e ícones nacionais mostrando que a troca que carícias não interferia na produção da dramaturgia? Será que a construção do relacionamento era assim tão necessária para mostrar ao público brasileiro a "validade" daquele amor? Diante da rejeição da novela, questiono o argumento de que a justificativa se baseava no enredo denso abordando corrupção e prostituição. Afinal, estamos falando de teledramaturgia na qual a má índole é recorrentemente abordada e valorizada a nível de representação, pois os vilões geralmente são aclamados pelo grande público. O fato é que para "suavizar" Babilônia, a solução foi cortar tramas, uma delas envolvendo o romance entre os personagens de Marcos Pasquin e Marcello Melo Jr. Além disso, as cenas de carinho entre Tereza e Estela também foram engavetadas, tudo para não "incomodar" o público mais conservador.

Estela e Tereza em Babilônia (2015)
Obviamente, não foi a primeira vez que a Globo age no sentido de vetar linhas de desenvolvimento ou cenas envolvendo o tema. Apenas dois anos atrás, em Sangue Bom, Felipinho (Josafá Filho) foi afastado da novela, após a sua trajetória abordar o despertar da sua sexualidade. Em Joia Rara, Viktor (Rafael Cardoso), previsto inicialmente como o primeiro personagem gay em uma trama de época da Globo, teve seu arco central totalmente alterado antes mesmo da estréia da novela e sua história passou a envolver um romance com Sílvia (Natália Dill). Além do ainda hoje discutido caso do corte do beijo entre Júnior (Bruno Gabliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), uma cena gravada e prevista para ser exibida  no último capítulo de América (2006), mas que nunca chegou a ser divulgada oficialmente.

Júnior e Zeca e América (2006)
E quando a trama não é simplesmente removida, também existe o caso de mudança de sexualidade, curiosamente ocorridos em duas tramas de João Emanuel Carneiro, pois tanto  em A Favorita quanto em Avenida Brasil, os personagens Orlandinho (Iran Malfitano) e Roni (Daniel Rocha) iniciaram os folhetins questionando sua opção sexual ao se sentirem atraídos por outros homens, mas terminaram as respetivas novelas envolvidos em relacionamentos heterossexuais.

Obviamente, alguns casais que fogem a esses exemplos podem ser destacados como: Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Aline Moraes), em Mulheres Apaixonadas (2003),  Jenifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie), em Senhora do Destino (2004) e Stela (Paula Burlamaqui) e Catarina (Lilia Cabral), em A Favorita (2008). Casos em que o desenvolvimento dos relacionamentos  resistiu ao público conservador e cujas histórias foram finalizadas sem "conversão hétero" ou cortes de tramas.  Há de se mencionar também as vezes que os personagens gays se destacaram como alívio cômico, ressaltando uma parcela menos heteronormativa da comunidade LGBT, como é o caso do mordomo Crô de Fina Estampa e o cabeleireiro Cássio (Marco Pigossi) de Caras e Bocas (2009), cujos bordões e carisma conquistaram o grande público e destacaram os atores. Crô ganhou até um filme próprio, tamanha sua popularidade. 

Rafaela e Clara em Mulheres Apaixonadas (2003)

O fato é que mesmo diante de tantos personagens homossexuais, a comunidade LGBT ainda luta para ganhar representatividade no cenário nacional, seja em comerciais de perfumes ou na dramaturgia, sem que a troca de afetos entre pessoas do mesmo sexo seja motivo para boicote ou "ajustes " nos enredos. Além disso, ainda é preciso fazer com que a sexualidade deixe de ser uma questão central no desenvolvimento dos personagens, e sim uma característica integrante da personalidade dos mesmos, de forma que estes tenham dilemas e conflitos além de sua sexualidade, permitindo-os serem bons, maus, complexos, vilões e protagonistas. A julgar por Babilônia, parece que ainda resta muito até chegarmos a esse estado.

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